A melhor versão já vista da profissão
Ana Mascarenhas é, de há um ano a esta parte, subdiretora geral da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT). Mas não esquece a profissão que já desempenhou. «A minha primeira profissão foi contabilista», recordou. Com a ajuda da plateia, recuou no tempo para lembrar que «os contabilistas viviam rodeados de pilhas de papel, as declarações de impostos eram em formato impresso, com recurso ao papel químico e a entrega era feita, em mãos, nas repartições públicas.» O mundo mudou e com ele a profissão. «A IA não é hype ou moda passageira. É uma transformação estrutural comparável à digitalização», sintetizou a oradora responsável pela área da inspeção tributária e aduaneira na AT. Ana Mascarenhas fez ainda um curioso paralelo entre a evolução da administração tributária e do papel dos contabilistas certificados ao longo dos anos. Se a administração fiscal começou na era do controlo, avançou para a atual era da eficiência, prevendo-se que o futuro seja assente na confiança e no valor, a evolução dos profissionais da contabilidade e da fiscalidade conheceu como primeiro patamar o registador de dados, seguindo para o analista de informação, sendo o último degrau, o parceiro estratégico, coincidindo com o contabilista 3.0. «A confiança não se automatiza. Acredito, por isso, que esta continuará a ser uma profissão interessante e que poderemos assistir à melhor versão que já conhecemos dela.»
Este foi o mote perfeito para que a bastonária, Paula Franco, sentada na primeira fila, voltasse a usar da palavra, no período de debate. «A Ordem tem em curso um projeto gigantesco e a que demos, precisamente, o nome de contabilista 3.0. Defendemos que exista uma central de dados com consentimento, um sistema que permite aos contabilistas acederem a dados fiscais e financeiros dos clientes com autorização explícita do próprio empresário. É fundamental a proteção de dados da empresa, até porque os negócios têm segredos e não podem ser partilhados. Defenderemos este argumento aqui e na União Europeia, no sentido de preservar a confiança e evitar concorrência desleal.»
Antes da pausa para café, um momento que já é um clássico desta conferência de Fiscalidade e Contabilidade, em Leiria. A atribuição dos prémios SAGE/IMB aos melhores alunos na unidade curricular de simulação empresarial, que há cerca de 20 anos existe na ESTG/IPL.
«Os impostos servem para nos defender do Estado»
O título do segundo e último painel não podia ser mais desafiante e até provocador: «Economizar impostos pode sair caro!». Habitual moderador nestas conferências, Fernando Amado referiu que após uma primeira metade em que se falou de IA, «tinha chegado a vez de se abordar a inteligência natural.» O docente da ESTG/IPL detalhou referindo-se em concreto a práticas como o planeamento fiscal, a elisão fiscal e a gestão fiscal. «E serão todas éticas?», questionou. Estava dado o mote para o que se seguiu.
Luís Leon é um rosto bem conhecido dos portugueses quando o tema são os impostos. O fiscalista e co-fundador da empresa ILYA lançou, de imediato uma questão, a que prontamente deu resposta: «Para que servem os impostos? Servem para nos defender do Estado e são uma limitação à gula do poder político. A Cláusula Geral Antiabuso não é um cheque em branco ao Estado. Deve, por isso, ser muito limitada para nossa proteção.» Crítico feroz da «irrelevância europeia à escala mundial», nomeadamente devido à divergência em relação ao resto do mundo em matéria de crescimento económico e à falta de normalização de impostos a nível europeu, Luis Leon deixou ainda alguns recados intramuros: «Somos um país de pobres e pelintras. Não geramos capital. E as nossas empresas são irrelevantes à escala europeia, quanto mais em termos mundiais. Para além disso, as sociedades melhoram quando se combate a pobreza e não quando se combate a desigualdade.» A sua intervenção não encerraria sem uma farpa aos políticos: «Não invejo o trabalho dos funcionários da AT, ainda para mais quando para a classe política estabilidade fiscal é quando as leis mudam de seis em seis meses.»
A Cláusula Geral Antiabuso também foi argumento na intervenção de Fernando Girão. O caso envolvendo o antigo selecionador nacional de futebol, Fernando Santos, atraiu a atenção mediática para o caso relacionado com este instrumento jurídico, «uma operação eminentemente pessoal e que teve uma vantagem fiscal inerente», disse. O treinador foi alvo de uma decisão da Autoridade Tributária portuguesa que aplicou a Cláusula Geral Antiabuso à forma como organizou os seus rendimentos profissionais. «Este instrumento coloca o contabilista entre a espada e a parede, com os clientes a esperarem dele uma resposta rápida, certa e às vezes de graça, só contribuindo para aumentar a litigância fiscal junto das instâncias fiscais e arbitrais», sustentou o consultor da Ordem.
Numa rápida pesquisa, na véspera, pela página do CAAD (Centro de Arbitragem Administrativa), Girão referiu ter encontrado 81 acórdãos com a referências a «Cláusula Geral Antiabuso». Elucidativo. O tempo restante da intervenção foi preenchido a esmiuçar algumas decisões do CAAD e do Supremo Tribunal Administrativo (STA) sobre esta temática, sendo uma das passagens de um acórdão alvo de especial atenção, por constituir «um problema para o contabilista»: «Serão centenas, milhares talvez, os sujeitos passivos que constituem sociedades, desprovidos de meios humanos ou físicos relevantes, sem qualquer razão económica válida capaz de o justificar, apenas com o fito de obter a vantagem fiscal acima identificada.»