A particular visão transalpina
A primeira sessão plenária do V CICP, moderada pela professora da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Susana Jorge, teve como tema âncora «repensar a gestão financeira pública: inovação, inclusão e resiliência para um futuro sustentável.» Num painel integralmente composto por oradores italianos, a primeira a intervir foi Francesca Manes-Rossi. A investigadora da Universidade Federico II de Nápoles debruçou-se sobre como a sustentabilidade e a inovação são fatores que permitem às entidades publicas gerarem valor, com a contabilidade a possibilitar uma visão estratégica do setor estatal. Uma visão de longo prazo, bem entendido, que não deve (e não pode) excluir a contabilidade. «Para termos mais confiança nas organizações públicas incorporar a questão da sustentabilidade seria um caminho importante a seguir», concluiu. Por seu turno, o seu compatriota, Emanuele Padovani dissertou sobre a problemática da sustentabilidade nas finanças públicas locais. O professor da Universidade de Bolonha debruçou-se sobre projetos de sustentabilidade em que participou em várias cidades do mundo, tendo exposto a sua experiência profissional, com reflexos, nomeadamente, nos indicadores de gestão e no enquadramento legal.
O último transalpino a intervir foi Marco Bisogno. O investigador da Universidade de Salerno centrou a sua exposição num tema muito específico: «Os bens confiscados de organizações criminosas e a criação de valor público.» Lembrando a tradição histórica no seu país da presença em território italiano de organizações criminosas, como a Máfia, Bisogno referiu que reside na «decisão política» o que fazer e como utilizar os bens confiscados, sendo que o valor financeiro, social e económico dos bens é definido pelo papel da contabilidade. O orador informou ainda os presentes que apesar de ser uma temática pouco debatida, a Comissão Europeia aprovou recentemente uma diretiva tendo em vista uma avaliação mais atenta e detalhada.
«O contabilista público tem de ir para a frente»
O primeiro dia do V CICP terminaria com uma sessão plenária. «Da Teoria à Prática: Materializar reformas contabilísticas e posicionar a contabilidade pública na agenda política», foi o tema proposto sob a moderação de Patrícia Gomes, do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA). A diretora do Centro de Investigação em Contabilidade e Fiscalidade (CICF) ressalvou o «fosso entre o normativo, os diplomas e o que concretamente está a acontecer na prática. A teoria é bem-intencionada mas, é por norma, insuficiente. Por isso, é importante mudar na contabilidade pública para que as reformas sejam mais efetivas.»
Andra Nikolic começou por salientar o exemplo demonstrado pelas autarquias locais, com o «aumento da qualidade na contabilidade financeira». O responsável máximo da Direção-Geral das Autarquias Locais (DGAL) mostrou-se confiante que o caminho continuará a ser trilhado com a futura revisão da Lei das Finanças Locais. Para além disso, «a contabilidade de gestão vai ser a força motriz» num futuro muito próximo, em resposta à crescente exigência demonstrada por «cidadãos cada vez mais desconfiados com as instituições e os políticos.» Ainda assim, o diretor geral lembrou que a reforma da contabilidade pública foi impulsionada pela troika, mas ficou, de certa forma «órfã», uma vez que, na sequência dos sucessivos superávites orçamentais, a pressão governamental foi atenuada.
Paula Duarte também não poupou elogios ao trabalho desenvolvido no poder local. «A realidade dos municípios é um mundo à parte, situando-se muito à frente de todas as outras entidades, apontado para isso o impulso do SNC-AP.» Contudo, identificou dificuldades que persistem: «Há recursos humanos que não estão capacitados para a contabilidade publica». Para este membro da autoridade de auditoria da Inspeção-geral de Finanças (IGF), «a figura do contabilista público tem de ir para a frente no sentido de atrair mais recursos humanos e, deste modo, melhorar a qualidade da informação.» A especialista deixou ainda o alerta que «a norma 27 tem mesmo de arrancar para se obter informação fundamentada». Apenas para contextualizar, a Norma de Contabilidade Pública 27 (NCP 27) tem com objetivo fundamental «fornecer dados fiáveis sobre a eficiência e economia de políticas públicas, com destaque para a imputação de custos indiretos e produção de informação para gestão interna e externa, sendo crucial nas autarquias.»
Falta de recursos comuns, um problema comum
De Espanha viajou, após ter estado na véspera em Lisboa, no seminário do CILEA, Javier Morillas Gomez. O conselheiro do Tribunal de Contas do país vizinho fez uma radiografia da administração local e das empresas públicas em Espanha, referindo que existem certas regiões autónomas que registam deficiências na prestação de contas, tendo citado o caso de concreto de Castilla-La-Mancha. A questão da penalização dos gestores públicos, inserindo-se na função jurisdicional do Tribunal de Contas, e as polémicas criadas na sequência dos contratos Covid, em que muitas aquisições foram formalizadas, invocando-se a emergência da situação, à margem dos procedimentos habituais, foram exemplos mencionados pelo conselheiro. Javier Gomez identificou ainda «a falta de recursos humanos» como um problema comum aos dois países, mas apontou que as novas tecnologias vão permitir incrementar a eficiência e a produtividade nos serviços públicos. «A responsabilidade dos organismos públicos é enorme e, por isso, os mecanismos de controlo têm de funcionar, até porque os cidadãos são cada vez mais exigentes em situações desta natureza. A confiança é o valor-chave para acautelar situações relacionadas com a corrupção e que colocam países como Portugal e Espanha em posições do ranking que não nos devem orgulhar», sustentou.
CICP termina amanhã
À margem das sessões plenárias, decorreram ainda durante todo o dia, nas instalações da EsACT-IPB, as sessões paralelas. Distribuídas por 7 salas, todas batizadas com nomes de sabores e odores alusivos à região (Azeite, Castanha, Mel, Amêndoa, Alheira, Folar). O V CICP termina amanhã, dia 20 de março. Ao longo de toda a manhã, a começar às 9 horas, haverá sessões paralelas e plenárias.