Contabilista – Em que medida é que a incerteza e a volatilidade que têm caracterizado a economia do mundo, pelo menos, nos últimos seis anos (pandemia, guerra da Ucrânia, conflitos no Médio Oriente, conflitos comerciais provocados pelas tarifas, efeitos das alterações climáticas, etc.) pesam nos crescimentos das economias dos países, nomeadamente no continente em que nos inserimos, a Europa?
Pedro Reis – É óbvio e quase intuitivo reconhecer que tudo o que é incerteza, volatilidade e risco não é bom para o crescimento das economias e para o investimento. Mas considero que nem tudo, por vezes, é tão mau quanto parece. O mundo atravessa uma fase muito crítica e decisiva, em que convergem mudanças de era, tanto na dimensão geoestratégica, geopolítica e também geoeconómica, com situações muito localizadas, mas muito profundas. Este é, necessariamente, um contexto de incerteza para qualquer investidor. Contudo, após o mundo passar por uma pandemia e viver dois conflitos, dificilmente seria de prever a capacidade de resiliência demonstrada pela economia mundial na resistência a choques tão violentos e continuados no tempo. O emprego e o próprio sistema financeiro internacional estão a resistir e a mostrar indicadores de capacidade de reinvenção inesperados. Apesar desta boa resposta, considero que os grandes bloqueios para o crescimento mundial e europeu são os dois conflitos em curso, no leste da Europa e no Médio Oriente. A minha firme convicção é que uma vez que estes conflitos abrandem ou mesmo se resolvam pode iniciar-se e desbloquear uma enorme onda de crescimento económico global. Lembremo-nos que, uma vez ultrapassada o Covid, sucedeu-se um período de grande dinamismo económico. E agora acredito que podemos ter uma etapa chamada de revenge investment, acelerando a agenda do investimento. Repare que em áreas específicas como a Defesa, a mobilidade ou a energia já existem fundos e recursos para investimentos massivos nestes domínios.
As convulsões geopolíticas têm sempre forte impacto nos mercados e, naturalmente, no preço dos combustíveis. Considera que existe transparência na fixação de preços dos combustíveis em Portugal ou continua a faltar clareza na explicação de como os mesmos são formados, nomeadamente o modo como a velocidade com que as subidas e descidas das cotações internacionais são repercutidas no preço final?
Importa dizer que vivemos um tempo em que a informação circula de modo profuso, alguma dela muito direcionada e pouco credível, e que é preciso separar, com responsabilidade cívica, o trigo do joio. É preciso não confundir complexidade com opacidade. A descodificação da estrutura de preços dos combustíveis tem mais a ver com complexidade do que propriamente com opacidade. Há um serviço público a fazer de descodificação. Não creio, de todo, que, como se diz popularmente, estejam a ir ao bolso ao consumidor. O delay é outro aspeto que não ajuda. Explico: existe um preço na produção, no armazenamento, na distribuição e no transporte, já para não falar das refinações, e quando chega ao consumidor está desencontrado da sua base de preço real. O que acaba por gerar falta de confiança. Saliento que os governos europeus têm, de uma forma geral, atuado bem para suavizar alguns picos mais críticos e o seu impacto nos consumidores individuais e nas empresas. As contribuições temporárias e especiais de apoio aos combustíveis têm sido equilibradas e usadas com peso, conta e medida.
Num estudo recente feito em coautoria por Nuno Palma e James A. Robinson, «Desbloquear o Crescimento de Portugal – Reformas estruturais e desafios à implementação de políticas económicas», os autores defendem que os tribunais deveriam conseguir tomar decisões, em regra, num prazo máximo de 90 dias. Dizem os responsáveis pela investigação que o país não precisa de mais reformas no papel, mas sim de um Estado capaz de executar, de uma Justiça rápida e de instituições que recompensem o mérito e a concorrência. Subscreve?
Sim, subscrevo totalmente. Aliás, esse é um desafio português e europeu. Há uns anos participei num grupo de trabalho da Business Roundtable Portugal, justamente a coordenar a aplicação de medidas e políticas de apoio à reforma do Estado e, nomeadamente, a uma justiça mais célere. A justiça lenta é um dos custos de contexto crónicos, tanto na Europa, como em Portugal. Apesar disso, creio que têm sido dados bons passos neste domínio, no sentido de agilizar a justiça sem perder a qualidade na decisão. Penso que temos recuperado tempo de atraso relativamente aos nossos parceiros internacionais. E é preciso ter em conta que acelerar muito as reformas (nomeadamente na justiça com impacto económico, civil e administrativo) pode ter um efeito boomerang e as decisões serem muito reversíveis e passiveis de recursos. É aquilo a que eu chamo de agilização artificial. Estou esperançado que a Inteligência Artificial vai ser um importante catalisador nesta matéria. O tempo de decisão hoje é quântico e como vivemos num mundo de perceções, um investidor decide com base em vários fatores. É preciso acelerar e passar do diagnostico à ação e isso consegue-se empregando recursos e accountability em cima das reformas. Mas, para além da dimensão da justiça, que é central, considero que a fiscalidade e a burocracia são os maiores custos de contexto da nossa economia.
Entende que existe espaço e oportunidade para fazer reformas, mesmo com um governo minoritário? Qual seria a reforma mais prioritária?
É muito mais difícil levar por diante reformas sem um apoio maioritário na Assembleia da República, do que se tivermos uma geometria política mais densa e consolidada. Mas sabemos que, nomeadamente na Europa, há países que vivem em permanente coligação e negociação parlamentar e não é por isso que não deixam de implementar as reformas necessárias. Portugal está preparado e ávido para um ritmo de reformas mais acelerado e os portugueses estão cansados de eleições. Penso que este ambiente é positivo porque permite uma conexão direta entre quem governa e o próprio país. A estabilidade política é um acelerador do reformismo de que Portugal ainda precisa.
Considera-se um liberal económico. Persiste alguma irredutibilidade ideológica que penaliza consensos sobre aspetos essenciais?
Não concordo que a ideologia contamine a decisão, o que acontece é que existe manipulação do debate e da discussão pública, adicionando-se sempre muito ruído a qualquer estudo ou solução apresentada, seja ao nível da carga fiscal, da reforma da Segurança Social ou do Estado, na privatização de determinado setor, etc. O que assistimos, frequentemente, é uma infantilização da discussão e um condicionamento do debate, quando o povo português está mais maduro, ao contrário do que muitos julgam, e disponível para mudanças. A plasticidade ideológica, bem como o confronto entre posições distintas, é positiva e é bom que exista, faz parte das democracias. Os eleitores precisam de ter caminhos e opções diversas para poder escolher. O problema é o seguinte: quando se lançam na praça pública discussões de maior profundidade, e que carecem de análise mais elaborada, imediatamente essa agenda é capturada por um certo condicionamento político, que aponta unicamente os aspetos negativos que essa reforma ou assunto tem para a população.
Os últimos dados relativos ao turismo apontam para uma desaceleração. Chegou a hora de mudar as fichas, em definitivo, para a inovação e o desenvolvimento estratégico, bem como para um modelo económico diferente assente na diversificação?
O turismo já incorpora muita inovação e tem feito um caminho estratégico de qualificação e de diferenciação para o país. É um setor estruturalmente importante e que tem demonstrado uma enorme resiliência. Temos atravessado diversos ciclos, muitos deles negativos, e o turismo continua a crescer. O turismo possibilita uma contaminação positiva para a indústria, para a agricultura e para o terceiro setor, melhorando a reputação do próprio país enquanto destino de investimento. São vasos comunicantes que não se podem desperdiçar. O principal desafio da economia nacional como um todo é a reindustrialização profunda e estratégica e o reforço do investimento produtivo. Mas não por desvalorização do turismo. O que é preciso é reforçar a indústria, na Europa e em Portugal, para que esta seja a coluna vertebral de uma economia com um ADN como a nossa, arrastando uma cadeia de valor de fornecedores locais.