«Pedagogia» e «métodos» para evitar litigância
Após a pausa para café, oportunidade para uma mesa-redonda sobre os problemas fiscais em torno da temática da construção, com a moderação a cargo de Filomena Lança, jornalista do «Jornal de Negócios», que sido autora de muitas notícias publicadas sobre este assunto.
António Pinto Ribeiro, responsável pelo departamento de fiscalidade do Grupo Casais, não se mostrou especialmente entusiasmado com a legislação para o setor da construção referindo que «conhecemos as regras do jogo básicas», mas existem muitas «zonas cinzentas e potencial para litígios.» O fiscalista criticou ainda as escassas medidas existentes ao nível de benefícios fiscais no âmbito da emigração e retenção de pessoas.
Para António Pedro Braga, a «legislação tem criado inúmeros problemas e confusões interpretativas por parte do legislador e dos próprios tribunais, com prejuízos assimétricos para as empresas.» Segundo o advogado, os problemas na raiz da litigância residem «na forma como as leis são elaboradas», sugerindo «a melhoria no processo legislativo e uma intervenção na pormenorização dos regimes.» Para o legislador e para os tribunais, o orador aconselhou «pedagogia» e «métodos» que procurem evitar a litigância.
«Mais do que a lei o que me preocupa é a sua interpretação». Foi desta forma que Anabela Santos sintetizou o que está em causa. «Falta responsabilizar todo o Estado por uma abordagem comum e estratégica em quase todos os setores da sociedade, seja na habitação, na fiscalidade, etc.», concretizou a consultora da Ordem e presença habitual das reuniões livres das quartas-feiras.
Anabela Santos fez ainda uma menção muito particular à forma como esta disposição legal afeta o trabalho dos contabilistas certificados: «A responsabilidade pela aplicação da lei recai toda sobre os profissionais, com os empresários a manterem-se alheados destas tecnicidades. Mas a responsabilidade dos profissionais é sobre a aplicação da taxa reduzida de IVA, mas também na inversão do sujeito passivo, sem esquecer as obrigações declarativas para o cumprimento do imposto. Todas estas dimensões vão ter repercussões ao nível da responsabilidade do contabilista certificado.»
Evitar cair em «armadilhas»
Com a acutilância que habitualmente o carateriza, Carlos Lobo juntou-se ao coro de céticos: «Se no IVA da reabilitação havia 1/100 probabilidade de correr mal e correu, neste IVA na Construção há 99/100 de correr mal, tal como está estruturado. Na verdade, ainda não começou a correr mal, porque ainda estão todos em fase de adaptação»
Orientando a sua intervenção para o papel de boa parte dos que o escutavam na plateia e também remotamente, o ex-Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais argumentou que «a formação dos CC é crítica para a criação de um conhecimento sólido para reagirem às investidas da AT e para evitarem cair em armadilhas. Basta que um de vocês caia numa armadilha, para todos sofrerem.»
Para Renato Carreira, os problemas da habitação são os mesmos que explicam que o país continue a não atrair investimento suficiente: fiscalidade complexa, custos de contexto elevados e burocráticos, justiça tardia. «Quantos promotores e investidores não se afastaram por via destes riscos?», questionou o economista e revisor oficial de contas.
Renato Carreira advogou «um contexto mais favorável para as empresas, não complicando com questões fiscais que acabam por emperrar o desenvolvimento económico e impedem que a economia e os recursos funcionem.»
Poucos minutos após a hora aprazada, a conferência seria encerrada por Clotilde Celorico Palma, uma das principais promotoras deste evento: «Foi um debate interessante e que suscitou imensos problemas», rematou a professora do ISCAL.