Este é um setor que se debate com problemas de recrutamento de trabalhadores. Sem recurso a imigrantes os negócios corriam o risco de parar?
A AHRESP representa tanto a restauração como o alojamento turístico, que inclui a hotelaria, o alojamento local, o turismo de ar livre, etc. Relativamente à sua pergunta, respondo afirmativamente. Estes setores não teriam condições operacionais sem o contributo dos trabalhadores imigrantes. É uma preocupação grande. No entanto, concordamos que há que haver controle, organização e integração. Temos programas em curso no âmbito do apoio à integração de imigrantes e, recentemente, assinámos um protocolo com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para qualificar recursos humanos no país de origem e proceder, depois, à sua integração em Portugal.
Disse, em 2019, numa entrevista ao jornal «I», que «ser empregado de mesa tem de passar a ser uma profissão sexy como aconteceu com os chefs de cozinha». Quais são os motivos que afastam, nomeadamente, a geração portuguesa mais nova deste trabalho?
Desde que proferi essas afirmações verificaram-se algumas mudanças. A designação «empregado de mesa» mudou para «assistente de sala», exatamente para contribuir para a atratividade desta profissão. Nos nossos contratos coletivos passou, por isso, a figurar esta nova categoria profissional. As escolas de formação também já estão a adotar essa designação. Para além disso, tem sido feita uma aposta na valorização da própria retribuição salarial. Mas isso é suficiente? Claro que não, são pequenos passos. No entanto, é preciso perceber que um negócio da restauração não funciona apenas com chefs. O serviço de mesa, o saber receber, é essencial. A verdade é que pode-se gostar muito de um restaurante por causa da qualidade da sua cozinha, mas, se o serviço de sala for mau, o cliente pode não voltar.
Pelo contrário, os chefs de cozinha são hoje verdadeiras estrelas e a sua notoriedade atrai muitos clientes para os seus estabelecimentos…
O chef de cozinha conseguiu essa valorização, também muito à custa dos programas de televisão e do glamour associado. O trabalho de servir à mesa ainda não conseguiu atingir o mesmo patamar, mas estamos empenhados para que essa viragem aconteça. A associação tem uma iniciativa que são os prémios AHRESP onde premiamos o que melhor se faz nas nossas empresas, mas também temos categorias que se destinam a distinguir as nossas pessoas. Estou em crer que, na edição deste ano, teremos algumas surpresas relativas à visibilidade do serviço de sala dos estabelecimentos. Veremos.
As empresas, de maior ou menor dimensão, estão confrontadas com o desafio de cumprimento dos critérios environmental, social e governance (ESG). Sendo a maior parte destas empresas micro e pequenas, admite que a sustentabilidade económica e financeira e, em muitos casos, a própria sobrevivência financeira é o que domina, no dia a dia, as preocupações dos empresários?
Sim, a sustentabilidade económica e financeira continua a ser a principal preocupação diária da maioria das empresas que representamos, e isso é particularmente evidente no universo das micro e pequenas empresas, que constituem a maioria dos negócios que representamos. Estamos a falar de empresas com estruturas muito reduzidas, muitas vezes familiares, em que os próprios proprietários acumulam funções de gestão, operação e administração. O desafio é que o cumprimento dos critérios ESG exige capacidade de investimento, planeamento e tempo de gestão, recursos que estas empresas têm de forma muito limitada. Cria-se, assim, um paradoxo: para aceder a financiamento e instrumentos de apoio, já é exigido um determinado nível de maturidade em sustentabilidade, mas para alcançar esse nível as empresas necessitam precisamente de apoio técnico e financeiro. A sustentabilidade não pode ser apenas uma condição de acesso, tem de ser também um percurso acompanhado. É por isso que defendemos que a transição ESG tem de ser gradual, proporcional à dimensão das empresas e apoiada por mecanismos específicos de capacitação e financiamento. Caso contrário, corre-se o risco de transformar um objetivo estratégico – tornar o setor mais sustentável – numa barreira adicional para negócios que já operam com margens muito curtas e elevada pressão de custos.
O âmbito das boas práticas abrange um largo espetro que vai muito para além da higiene e da segurança alimentar. Como estamos, por exemplo, em matéria de combate ao desperdício alimentar?
Como refere, o universo das boas práticas é hoje muito mais abrangente do que a higiene e a segurança alimentar. Inclui gestão eficiente de recursos, organização operacional, valorização das equipas e, de forma muito clara, o combate ao desperdício alimentar, que deixou de ser apenas uma questão ambiental para se afirmar como um fator crítico de gestão. Na Academia AHRESP, este é um dos temas centrais da formação que desenvolvemos junto dos empresários, que têm cada vez mais consciência que reduzir desperdício é também proteger a rentabilidade. Num contexto em que as matérias-primas representam um dos maiores custos operacionais e as margens são muito curtas, cada falha na gestão de stocks, porções ou conservação traduz-se em perda direta. Hoje, combater o desperdício é simultaneamente uma boa prática ambiental e uma decisão económica.
Este é um setor muito particular que tem de suportar elevados custos de contexto, nomeadamente para o cumprimento das obrigações fiscais e tributárias e a própria burocracia. Qual é a importância da proximidade dos contabilistas certificados com os empresários deste setor, nomeadamente na descodificação de nova legislação e apoios do Estado?
Estamos perante um tecido empresarial maioritariamente composto por micro e pequenas empresas, muitas vezes com estruturas de gestão muito reduzidas. Isso faz com que o contabilista certificado assuma um papel que vai muito além do cumprimento formal das obrigações fiscais: é um verdadeiro parceiro de gestão. Em setores com forte carga regulatória, alterações legislativas frequentes e acesso a instrumentos de apoio que exigem rigor técnico, o contabilista é quem traduz a complexidade da lei para a realidade do negócio. Apoia na interpretação de novas medidas, na elegibilidade a apoios públicos, no cumprimento das obrigações fiscais e contributivas, no controlo financeiro, na gestão de custos e, muitas vezes, também em matérias laborais e de recursos humanos. Esta proximidade é essencial para mitigar risco, assegurar transparência e apoiar decisões num contexto de margens curtas e elevada pressão operacional. A pandemia tornou isso particularmente evidente: a articulação entre empresários, contabilistas e a AHRESP foi decisiva para que muitas empresas conseguissem aceder a apoios e manter a atividade. Nestes setores, o contabilista é um elemento estruturante da sustentabilidade do negócio.
Ou seja, está confiante que mesmo com o alastrar da sofisticação tecnológica a todas as partes da sociedade, os contabilistas e os empresários do setor vão permanecer muito próximos?
Vamos fazer o nosso congresso no próximo mês de outubro, nos dias 22 e 23, em Lagoa, no Algarve, e contamos com a parceria da Ordem, como tem sido habitual. O foco estará precisamente no conhecimento e na inteligência artificial (IA) e fica desde já prometido que vamos ter temas e painéis do maior interesse para os contabilistas. Aliás, e a propósito desta nova era, permita-me que diga que não haverá IA que afaste os empresários dos setores que a AHRESP representa dos contabilistas certificados. Esta parceria está para durar. Os contabilistas certificados são um aliado para a vida. Temos apenas de nos adaptar, evoluir e aprender a viver novos tempos.
Cumpre 26 anos de ligação à AHRESP. Entrou como jurista, foi secretária-geral adjunta e hoje é secretária-geral e porta-voz nas intervenções públicas da associação. Que balanço faz deste percurso nesta casa?
É uma pergunta difícil. Tem sido um percurso gratificante, sempre com muitos desafios, tendo o maior sido, inegavelmente, a pandemia. Apesar das dificuldades, a AHRESP representa setores que têm demonstrado grande dinâmica e resiliência, com capacidade de regeneração. Pessoal e profissionalmente tem sido uma aprendizagem constante, que me tem permitido crescer. Quando integrei a AHRESP existiam apenas quatro delegações e uma equipa reduzida; atualmente, a estrutura conta com uma equipa de cerca de 55 profissionais, 16 delegações regionais e 9 polos de atendimento, cobrindo todo o território nacional. O balanço não podia ser mais positivo, mas estou convicta que há ainda muito para progredir. Acho que ainda estou a meio do percurso.
Entrevista Nuno Dias da Silva | Fotos Bruno Colaço
Entrevista publicada na Revista Contabilista n.º 309 janeiro 2026