Contabilista – A AESE é a mais antiga escola de negócios do país, com mais de 45 anos de existência. O que é que a distingue das outras escolas da especialidade?
Maria de Fátima Carioca – Fundada em 1980, por um grupo de empresários e académicos, fomos a primeira business school, em Portugal. Na altura, sentiu-se a necessidade de formar, quer empresários, quer executivos em geral. A ambição e o facto de ser uma genuína business school são os traços distintivos desta instituição. A sua vocação reside na preparação dos líderes, sejam empresários ou dirigentes de empresas, do setor do Estado, entidades não governamentais. No fundo, todos os protagonistas na área da economia e da sociedade cabem nesta escola. Para além disso, temos a particularidade de a nossa génese estar muito ligada ao IESE. Uma business school que congrega uma rede de escolas associadas à qual pertencemos. São 17 escolas espalhadas por praticamente todos os continentes, agregadas por um projeto e uma visão comuns sobre a nossa própria missão e sobre o mundo. É assente neste chão comum que procuramos preparar líderes para os tempos presentes, futuros, para o que conhecemos e, em especial, para o que desconhecemos.
O estudo de casos é o método preferencial de aprendizagem na AESE. É neste aspeto que reside a principal particularidade da formação ministrada?
O melhor elogio que pode ser dado é quando oiço um formando dizer que aquilo que aprendeu ou experienciou em sala de aula já o fez pensar ou já aplicou na prática na sua respetiva organização. Com a formação pretende-se proporcionar momentos de encontro, conhecimento global, abrindo o mundo para todos os participantes, com especial enfoque na metodologia do caso. É este aspeto que determina que a transmissão do conhecimento nesta escola, para aquilo que eu chamo a comunidade AESE, assuma características muito próprias, no sentido de possibilitar uma visão geral e abrangente da direção e da função da direção nas empresas e nas organizações.
Formar executivos muito hábeis, mas mantendo inalienáveis os valores éticos, cristãos e humanistas é a principal missão?
Essa é a matriz fundacional, da qual não abdicamos, e que acompanha os líderes, ao nível profissional e também do caráter, que frequentam as nossas formações. Privilegiamos a excelência profissional, desde que seja indissociável da integridade. Um líder genuíno e autêntico é integro, até porque é a única maneira de as pessoas poderem confiar nele. Para além, naturalmente, de um grandioso espírito de serviço, em particular naquilo que dá aos colaboradores, aos clientes e à comunidade onde a sua organização está enraizada.
Da ligação que tem com o tecido empresarial, considera que existe um défice de predisposição para a formação e atualização de conhecimentos de modo permanente?
Não sei se essa predisposição é voluntária ou involuntária, mas é nestes momentos de incerteza e grande vulnerabilidade que se regista uma maior procura de formação por parte dos líderes. Há um mundo que querem entender melhor, em particular a revolução tecnológica em curso e os seus efeitos nos instrumentos de gestão. Contudo, o nosso tecido empresarial é constituído, esmagadoramente, por micro, pequenas e médias empresas, e estes empresários vivem o dia a dia, sendo grandes as dificuldades para sair fora da sua luta e rotina diárias. Em suma, a disponibilidade mental é escassa para procurar estratégias de modo a aumentar a robustez e a resiliência.
Resolver a carência de formação dos líderes, sejam gestores ou empresários, ajudaria a fortalecer e a conferir outra dinâmica à economia?
Certamente. Uma melhor preparação leva à elaboração de estratégias mais ambiciosas. Ao nível, por exemplo, dos ganhos de escala. Se as empresas conseguirem crescer, os empresários terão um mindset mais global e uma visão mais ambiciosa do seu próprio posicionamento em termos económicos, o que são características propicias à criação de um círculo virtuoso, tanto para empresa como para o país. No atual contexto, é cada vez mais importante ter estruturas mais robustas e menos exposto às adversidades, sejam estas de que natureza for.
Em termos do processo de recrutamento, que qualificações são mais valorizadas para responder aos dias de hoje: as soft skills, as hard skills ou uma mescla?
Dizia uma diretora de recursos humanos mundial da Unilever: «Na atualidade, não conseguimos dar trabalho para a vida, mas conseguimos dar competências para a vida.» E estas últimas são, precisamente, as de carácter transversal cujo conceito emerge com especial acuidade. Talvez as soft skills sejam mais preponderantes, visto que incluem a capacidade de adaptação a novas situações, a aprendizagem, a curiosidade e a criatividade, a proatividade no sentido da participação em projetos comuns, o pensamento critico, a empatia, etc. Ao nível das hard skills, assume relevância a dimensão da literacia digital, fundamental para lidar melhor ou pior com um mundo que está em revolução tecnológica.