Notícias
Profissionais com um perfil mais estratégico, ético e digital
18 Março 2026
CILEA_1
XLIV Seminário Internacional de Países Latinos Europa América, realizou-se a 18 de março, em Lisboa


A Ordem dos Contabilistas Certificados e o Comité de Integração Latino Europa-América (CILEA) organizaram, a 18 de março, no auditório António Domingues de Azevedo, em Lisboa, o XLIV Seminário Internacional de Países Latinos Europa América, subordinado ao tema «Desafios atuais da profissão de contabilista». Foi o nono seminário do CILEA organizado em Portugal que, uma vez mais, serviu para o intercâmbio de experiências e realidades das organizações contabilísticas de matriz latina, onde se inclui a Ordem, também membro do CILEA.

«A tecnologia não vai substituir o profissional, vai antes redefinir o seu papel»

Na sessão de abertura, a bastonária Paula Franco salientou a importância da «partilha de reflexões, informações e troca de experiências para o crescimento e a adoção das melhores práticas». Por seu turno, Valentin Pich Rosell, presidente do CILEA, defendeu que «os profissionais só fazem sentido se forem úteis, acrescentarem valor e prestarem serviços», caso contrário, «transformam-se numa mera commodity.» O último interveniente foi Manuel Arias, diretor do IFAC. «Num contexto geopolítico tão difícil como o que vivemos, o estreitar de laços entre países e a cooperação entre profissionais é fundamental».
«Riscos a que a profissão está exposta» foi o tema proposto para o primeiro painel do seminário, moderado pelo diretor da Ordem, Álvaro Costa. Líder da principal organização contabilística europeia, a EFAA, que representa mais de 400 mil profissionais no velho continente, o espanhol Salvador Marin Hernandez trouxe até Auditório António Domingues de Azevedo o perfil do novo contabilista: «A transformação estrutural que está em curso na profissão vai afirmar os contabilistas como consultores de confiança, emergindo um perfil mais estratégico, ético e digital».

Redefinição do papel do contabilista

Carlos Menezes moderou o segundo painel subordinado ao tema «Impacto da economia digital e da IA na profissão de contabilista». O especialista em digitalização, Gustavo Moreno Calvo, utilizou como mote da sua intervenção uma frase tornada célebre pelo xadrezista russo e defensor da IA colaborativa, Garry Kasparov: «A inteligência artificial não vai substituir os humanos, mas os humanos que a usarem substituirão os que não a usam».
João Gomes da Silva, responsável pelo desenvolvimento do TOConline, explicou a forma como a ferramenta da Ordem tem progredido ao nível dos processos, no sentido de «reduzir tarefas repetitivas», de forma que os contabilistas «tenham ganhos de tempo no seu trabalho diário.» Para o colaborador da Ordem, «a tecnologia não vai substituir o profissional, vai antes redefinir o seu papel.»

«Se desconfiarem de algo, reportem ao SIS!»

«A importância da segurança para os escritórios de contabilidade», foi o sugestivo tema antes da pausa para café, com moderação de João Ferreira da Silva, assessor da bastonária. O oficial de informações do Serviço de Informações de Segurança (SIS), procurou sensibilizar os presentes para a importância da segurança no dia a dia. «Informação é poder, meus amigos. E vocês, nas vossas organizações, têm muita». Foram cerca de 40 minutos de uma intervenção que prendeu a assistência, um autêntico guia prático com orientações úteis, que terminaria com um apelo: «Se desconfiarem de algo, reportem ao SIS!».

Coube à consultora da Ordem e cara habitual das reuniões livres das quartas-feiras, Anabela Santos, a condução do painel a que se deu o título: «A evolução do perfil do cliente». Regressado ao palco, Valentin Pich Rosell, presidente do CILEA, debruçou-se sobre o impacto do «advento do fator digital» dos escritórios de contabilidade. «As relações hoje entre profissionais e clientes estão muito mais líquidas. O sentimento de pertença é muito mais diluído. Não se paga pela permanência, mas pelo uso», sentenciou. Da República Dominicana viajou Nelson Hahn Jacobo, presidente da Associação Interamericana de Contabilidade (AIC), que abordou a forma como a ética, que deve estar no ADN do contabilista, deve ser incorporada no valor dos serviços. «Os profissionais devem deixar a sua marca pessoal em tudo o que fazem, mas só aceitando compromissos em que podem fazer a diferença com a devida qualidade e integridade», afirmou.

Em busca do propósito e da felicidade

«As novas gerações e os desafios da profissão», o tema derradeiro e, necessariamente, um dos mais importantes da atualidade. Pedro Nuno Ferreira, diretor da OCC a quem coube a moderação, salientou o esforço que a instituição tem feito para rejuvenescer a profissão. Contudo, de acordo com os últimos dados, 22 por cento dos cerca de 70 mil membros têm mais de 60 anos. «Este trabalho tem de continuar, visto que a economia e o país precisam dos profissionais», acrescentou.  

Remy Terceros Férnandez, primeiro vice-presidente do CILEA e representante do Colégio de Auditores e Contadores Públicos da Bolívia, subordinou a sua apresentação a uma visão da América Latina que no que às novas gerações e aos desafios da profissão de contabilista diz respeito.
Maria Clara Bugarim é um nome consagrado da contabilidade brasileira, com uma ligação de mais de três décadas à profissão. A representante do Conselho Federal de Contabilidade declarou que «a contabilidade, como linguagem internacional dos negócios, nunca foi tão necessária. Mas, paradoxalmente, nunca foi tao desafiador torná-la atrativa. Precisamos entender a linguagem que os profissionais necessitam de utilizar no dia a dia para atrair as futuras gerações que, agora mais do que nunca, buscam por um propósito e pela própria felicidade.» 

Conselheiro do Tribunal de Contas de Espanha, onde é responsável pelo departamento de fiscalização, Javier Morillas Gómez colocou o seu enfoque no tema da corrupção que considerou um «cancro» em certas sociedades. O conselheiro do país vizinho não escondeu o seu desagrado pelo facto de Portugal e Espanha figurarem, respetivamente, nos lugares 43.º e 46.º dos rankings internacionais no âmbito da corrupção. «É um resultado desprestigiante. Como fazer para melhorar estas posições? Apostar na transparência e na prestação de contas, em busca da excelência na auditoria, gestão pública e a colaboração público-privada.»

A conferência não terminaria sem as intervenções dos anfitriões, Paula Franco e Valentin Pich Rosell. A bastonária reforçou a ideia de que o contabilista «é sinónimo de confiança, ética, defesa e interesse público, sempre ao lado das empresas.» Por seu turno, o responsável máximo do CILEA sublinhou que os profissionais são «o garante da aplicação das normas contabilísticas e da sua utilidade.»